O problema dos alimentos
industrializados e o homem moderno.
Aumento do consumo de refeições industrializadas e
de alimentos com excesso de açúcar, sal e gordura pelos brasileiros assusta
especialistas
Não é de hoje que se aponta açúcar, sal e gordura
em excesso como os vilões de uma alimentação inadequada, mas uma pesquisa do
Ministério da Saúde acaba de concluir que a situação vem se agravando. O estudo
revelou uma queda no consumo de alimentos saudáveis e a substituição por
produtos industrializados e refeições prontas. “O que a população desconhece é
que esses alimentos geralmente contêm grande quantidade de sódio e gordura
saturada, que, se consumidos com frequência, podem gerar sérios problemas de
saúde”, adverte a presidenta da Associação Brasileira de Nutrição (Asbran),
Márcia Fidelix. Para alertar a população sobre esses riscos, a Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou uma série de novas regras para a
publicidade e a promoção de alimentos e bebidas com baixo teor nutricional e
elevadas quantidades de sódio, açúcar e gordura saturada ou trans.
A resolução (RDC 24/2010) inclui a veiculação de
alertas nos comerciais de televisão e rádio, com textos como: “O (nome
comercial do produto) contém muito açúcar e, se consumido em grande quantidade,
aumenta o risco de obesidade e cárie dentária”. O limite dado pela agência para
a quantidade de açúcar em alimentos sólidos é de 15g a cada 100g de produto. Um
pacote de biscoito recheado, por exemplo, chega a conter 60g de açúcar em 100g
de biscoitos, mais de quatro vezes superior ao limite. Quanto à gordura
saturada, o valor estabelecido é de 5g a cada 100g. E o limite para a
quantidade de sódio é de 0,4g para cada 100g de produto. As empresas terão 180
dias para se adequar às novas regras.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde, mais
de 45% da população brasileira está acima do peso — e 20% dos adultos já são
considerados obesos. “Excesso de peso e má alimentação são responsáveis por um
grupo chamado de macrodoenças, que estão ligadas à principal causa de óbitos no
país, por desencadearem problemas cardiovasculares(1)”, explica João Eduardo
Salles, representante do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de
Endocrinologia e Metabologia (Sbem). Esses males são a hipertensão, a obesidade
e a hipercolesterolemia (colesterol alto).
O bancário João Gabriel Cupello, 25 anos, tinha as
três doenças ao mesmo tempo e, com a saúde ameaçada, teve que recorrer à
cirurgia de redução do estômago. “Minha alimentação sempre foi errada. Nunca
fui de gostar de salada e comia muita besteira e refrigerantes”, conta. Assim
como Cupello, os jovens são muito influenciados pelas propagandas. A iniciativa
da Anvisa visa proteger os consumidores da omissão de informações e da indução
ao consumo exagerado. “Os alertas nas propagandas vão possibilitar a reflexão
do consumidor, para que ocorra uma mudança de comportamento, desestimulando os
excessos. Essa medida reflete a capacidade e o dever do Estado de proteger a
população”, argumenta a gerente de monitoramento e fiscalização de propaganda
da Anvisa, Maria José Delgado.
Mais visível
Salles, da Sbem, apoia a iniciativa. “O aviso vai
alertar o paciente antes mesmo de ter que consultar a tabela nutricional, que
geralmente está em letras minúsculas”, sustenta. A informação nutricional é
obrigatória nos rótulos dos alimentos, mas é importante que o consumidor saiba
como consultá-la. Para o especialista, bons alimentos são aqueles com
quantidades adequadas de nutrientes. E aponta como principais vilões os
biscoitos recheados, os refrigerantes e as refeições industrializadas. “Esses
biscoitos contêm uma quantidade enorme de açúcar e gorduras, mesmo os livres de
gordura trans. Os refrigerantes exageram no açúcar. E as comidas congeladas, como
as pizzas e lasanhas, são repletas de sal e gordura saturada”, exemplifica. O
especialista afirma que não adianta recorrer aos refrigerantes de baixa
caloria: “Não oferecem nenhum benefício nutricional e, além disso, possuem
elevada quantidade de sódio”.
A designer de cabelos Renata Najar, 37 anos, sofre
de hipertensão e concorda com as novas regras estabelecidas pela Anvisa. “Após
a confirmação do diagnóstico por um cardiologista, passei a tomar medicamentos
diários para o controle da doença e a evitar o consumo de alimentos com muito
sódio”, conta. “O sal da comida caseira é mínimo, se comparado à quantidade em
alimentos industrializados. Esse aviso nas propagandas vai me ajudar a saber
mais facilmente quais produtos terei que evitar.” Para a consumidora, os avisos
deveriam estar também em destaque no rótulo dos produtos, e não apenas nos
anúncios publicitários.
Crianças
Na última assembleia da OMS, realizada em Genebra
neste ano, a organização recomendou que os países adotassem medidas para
reduzir o impacto da propaganda de alimentos pouco nutritivos sobre as
crianças, já que as escolhas delas influenciam em até 80% as compras feitas
pela família. Para a pediatra Maria Cristina Duarte, mestre em saúde da mulher
e da criança pela Fundação Oswaldo Cruz, a regulamentação da Anvisa foi um bom
começo, mas ainda há muito para ser melhorado. “As crianças são estimuladas por
sons, cores e imagens, são tentadas pelas logomarcas e seduzidas pelos
presentes oferecidos com os alimentos”, explica.
Uma pesquisa realizada pelo Projeto Criança e
Consumo do Instituto Alana, com crianças entre 3 e 11 anos, destacou que
guloseimas são mais desejadas que brinquedos. Dentre elas, os biscoitos
recheados são os mais consumidos, seguidos por refrigerantes, salgadinhos,
batatas fritas e pizzas. “São calorias vazias(2), e o resultado é preocupante,
já que esses alimentos podem gerar nas crianças um problema chamado síndrome
metabólica”, alerta. A especialista conta que essa síndrome causa elevações dos
níveis de lipídios e colesterol, alterações na glicemia e na insulina e pode
levar à obesidade e à hipertensão arterial. “Antes, pensava-se que isso ocorria
apenas em adultos, mas hoje já sabemos que as crianças também podem desenvolver
esse problema”, afirma.
O Instituto Alana defende uma resolução específica
para o público infantil. “Apesar de ser uma medida inovadora, um avanço para a
proteção da sociedade, a Anvisa perdeu a oportunidade de ir além”, lamenta a
coordenadora-geral do projeto, Isabella Henriques. Um capítulo que regulamentava
a vinculação de brindes e outros atrativos a alimentos que, em excesso, podem
ser nocivos à saúde das crianças e definia horários apropriados para a
divulgação desses produtos não foi incluído na resolução da Anvisa. “A maior
parte da publicidade desses alimentos é voltada para o público infantil, que
deveria ser tratado de forma especial, por ser formado por consumidores
hipervulneráveis”, completa Isabella.
1 - Grupo letal
São doenças que afetam o sistema circulatório, como
o coração, veias, artérias e vasos capilares. As doenças mais comuns são o
enfarte do miocárdio e o AVC (acidente vascular cerebral). Esse grupo de
doenças é responsável pelo maior número de mortes no Brasil.
2 - Nutrição mínima
Estão presentes em alimentos muito calóricos, mas sem
benefício nutritivo. Contém pouco ou nenhum nutriente essencial, como
vitaminas, proteínas e fibras. Batatas fritas, balas, chicletes e biscoitos são
exemplos de alimentos com as chamadas calorias vazias.
O
A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que
pelo menos 42 milhões de crianças com menos de 5 anos estarão obesas ou acima
do peso até o fim de 2010 — 80% delas moram em países em desenvolvimento, como
o Brasil
No Brasil, 30% das crianças estão acima do peso —
15% já são consideradas obesas
Cerca de 50% das campanhas publicitárias veiculadas
na TV são direcionadas ao público infantil.
Aluno: Danilo Queiroz






0 comentários:
Postar um comentário